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O caráter auto-dominatório da manipulação

 O homem nasce da vitória sobre o animal, sobre o instinto. Vencer o instinto não é enfraquecê-lo ou suprimi-lo, mas dominá-lo, transcendê-lo, dirigi-lo e usá-lo em nosso favor. Em uma palavra: assimilá-lo. O domínio sobre os instintos requer a morte dos egos.



Quando lidamos com pessoas perigosas, complicadas ou difíceis, temos que aprender a nos mover entre suas paixões. "Colocar-se na mesma corrente de pensamentos que um espírito", como escreveu Eliphas Lévi (1855), é ser capaz de simular semelhança e convergência de propósitos. "Manter-se moralmente acima do mesmo", é estar isolado da mesma influência e não ser atraído pelo mesmo objeto. Em outras palavras: simular um comportamento com o cuidado de não ser absorvido e dominado por este comportamento, reforçar as idéias do outro sem ser magnetizado por elas. Os maus necessitam do sofrimento dos bons para se satisfazerem. Quando não conseguem atingir este intento, sofrem emocionalmente pois a energia maligna que criaram dentro de si não encontra receptáculo fora e retorna ao seu ponto de partida, podendo inclusive provocar-lhes doenças. É deste modo que os bons atormentam os maus. Logo, é uma grande vantagem sermos superiores aos malvados e o conseguimos quando somos impenetráveis ao medo, ao ódio, aos afetos, aos apegos e a todas as paixões. As principais paixões determinantes de um processo manipulatório são as aversões e os desejos. As aversões correspondem a medos e ódios; os desejos correspondem às cobiças, aos anelos e aos sonhos. Obviamente, todos os elementos psíquicos se entremeiam. As aversões promovem antipatia e os desejos promovem simpatia. A vítima sempre tende a crer mais facilmente naquilo que teme ou deseja. Contra as forças internas, o homem é indefeso. Não é necessário, portanto, manipulá-lo de fora quando se sabe ativar os elementos internos que o levarão à meta almejada. Respeitar o livre-arbítrio do outro é permitir-lhe o direito à auto-determinação, deixá-lo ser o que é e fazer o que quer. É respeitar os seus desejos ao invés de tentar fazê-los fluir ao contrário. Curiosamente, quando tal se verifica, a pessoa abre a oportunidade de ser dominada através de si mesma, infelizmente. Vemos então que os seres humanos estão permanentemente vulneráveis e expostos a menos que descubram e combatam suas fraquezas. Pode-se corromper as pessoas por meio de suas más inclinações previamente existentes. Para tanto, basta que o manipulador as acenda por meio de palavras e gestos. Felizmente, pela mesma via podemos regenerá-las. Entrar em sintonia com aquele que se pretende dominar é ser capaz das mesmas atitudes e falas às quais o mesmo está inclinado. A maleabilidade exigida se consegue apenas por meio da morte dos egos. Aquele que não tem paixões não tem expectativas fixas, rígidas e previamente estabelecidas com relação ao próximo e por isto pode instrumentalizar para seus fins as tendências comportamentais alheias. Obviamente, se o ego estiver morto os fins não serão egoístas e nem passionais. Por desgraça, é muito mais fácil excitar a paixão alheia para o mal do que para o bem pois o mal corresponde às tendências reprimidas. O mal corresponde aos desejos proibidos, os quais possuem enorme carga libidinal contida. O conhecimento da disposição do outro é indispensável e é obtido por meio da observação. O rigoroso cuidado posto sobre a nossa morte psicológica nos torna imunes aos efeitos hipnóticos e contra-hipnóticos que as operações desencadeiam, nos permitindo fazer frente aos charlatães e velhacos manipuladores, devolvendo-lhes influências. Sem a morte dos desejos somos vitimados pelas forças fascinatórias que ativamos ou que tentam ativar em nós.

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