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Não existem heróis

 “O homem deve tornar-se melhor e pior, esta é a minha doutrina … Pode ter sido um bem para aquele pregador dos humildes sofrer e tentar arcar com o pecado do homem. Mas eu alegro-me com o grande pecado, é a minha consolação.” - (XIII, O Homem Superior - IV, 5) Assim Falou Zaratustra - Nietzsche



“Não gosto de heróis”, murmura o cidadão democrático. “Serei o meu próprio herói”. Em vez de termos os líderes poderosos e selvagens, na maior parte dos casos, somos liderados por Zés-Ninguém. À medida que vamos envelhecendo, deixamos de admirar simplesmente o poder, a riqueza, a beleza e a força. Da mesma forma que descobrimos que a vida nos obriga a lutar pela concretização dos nossos desejos, e que grande parte dessa luta passa pela descoberta de um equilíbrio entre fazer aquilo que nos apetece e o que somos obrigados a fazer para sobreviver, também os nossos heróis adquirem uma forma mais modalizada, talvez mesmo mais humilde. Começamos a admirar qualidades como a coragem, a integridade, o idealismo e, principalmente, a persistência, a capacidade para preservar em situações adversas. Para qualquer pessoa que se agarre à crença de que existe democracia – que podemos confiar razoavelmente num grupo de nossos “pares” para tomar decisões que promoverão o interesse da sociedade em geral – o conceito de herói causará arrepios. Os sistemas sociais hierárquicos antigos; cheiram a sangue e tripas, em vez de compromisso pacífico; reduz o sentido do seu próprio valor do cidadão, em favor de um ser vago e abstrato que é, por definição, superior. No entanto, quer isso nos agrade ou não, acreditamos em heróis desde o dia em que nascemos: os pais irreais, um professor benevolente, uma personagem numa canção ou num livro infantil, uma estrela do desporto – todos figuras mais ou menos remotas, que cederão lugar ao mais alto, mais bonito, mais competente e socialmente mais talentoso dos companheiros de escola. (E isto nem inclui os super-heróis insuflados dos desenhos animados e da televisão, que amortecem a dor genuína da admiração, e que nos projetam num mundo de fantasia solipsística.)

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